segunda-feira, 4 de julho de 2016

Se decidirmos, nós sempre ficaremos com os amores de nossas vidas.

Meus amigos do facebook compartilharam aos montes um texto sobre como as vezes o amor de nossas vidas escapa pelos nossos dedos. Que me desculpem os fatalistas, mas não consigo participar desse grupo de pessoas que acredita que amor é essa loucura sobrenatural que nos tira da realidade. Não consigo crer que ele vai me trazer arrepios e que dentro dele as borboletas nunca vão deixar meu estômago. Não consigo ver amor na emoção a flor da pele, no toque eletrizante, na tremedeira da insegurança. Acredito que isso seja paixão. E paixão, meu bem, nunca colocou aliança no dedo de ninguém.

Vivemos numa geração que minimiza e objetiva praticamente tudo que se possa comercializar. Fomos convencidos que de que somos o centro do mundo, de que nossa felicidade é a mais plena regra que deve reger o universo, que estamos vivos e isso é tudo. Desaprendemos a consertar as coisas, abraçamos de olhos fechados a obsolescência programada, enjoamos das coisas, das pessoas e dos sentimentos com a mesma facilidade e velocidade com que enjoamos daquela música depois de que a ouvimos cem vezes seguidas. E nesse cenário o amor não sobrevive. Não em sua mais pura essência e beleza. Não em sua mais profunda e avassaladora forma. Não é a toa que escrevemos menos romances, compomos menos sinfonias, perdemos o jeito ao falar de fidelidade. Somos, infelizmente, uma geração que nem sequer é fiel a um time só de futebol, que dirá a um grande amor que teria potencial para durar a vida toda? Fidelidade a que? a quem? Por quê? E amor não respira sem fidelidade. 

Acredito que aqui mora o nosso problema: Desconstruímos absolutamente todos os valores que são necessários a sobrevivencia de um amor, e o assistimos definhar, levando consigo nosso verdadeiro valor e sonhos. Um amor não divide espaço com o egoísmo. Ele não conhece o "eu", só se pode conjugá-lo com o "nós". Dentro de um amor, o que rege o universo não é a minha felicidade e sim a felicidade do meu amor. Assistimos tantos seriados dramáticos que desvalorizamos uma vida tranquila, paciente, mansa. Queremos o espetáculo, a briga, as lágrimas, o barulho da porta batendo com raiva, a ligação rejeitada, a possibilidade de abandonar o compromisso diante da primeira dificuldade. Entendemos que ser livre é poder permanecer exatamente como somos e ser idolatrados por isso. Não entendemos que liberdade é exatamente o contrário: É ser livre pra mudar, consertar nossos erros, negar nosso ego e decidir ficar. Liberdade é conseguir mudar por amor e continuar sendo a mesma pessoa. Liberdade que nos afirma é solidão. Liberdade que nos transforma é comunhão.

Não acredito que deixamos o grande amor de nossas vidas escapar pelo simples fato de que acredito que o amor é exatamente o que permanece. Amor é calmaria, é certeza, é companheirismo, compreensão, fidelidade, gratidão. Amor é ação, decisão, raciocínio. Mas quem tem coragem de amar? Não é coisa para qualquer pessoa. Amar exige maturidade, altruísmo, humildade, respeito. Ele aparece quando as borboletas vão embora, a tremedeira se encerra, o suor das mãos seca. Ele se manifesta quando toda essa loucura boa da paixão passa e você ainda assim deseja ficar. Quando mesmo diante de todos os defeitos e discussões, você ainda assim, sente prazer na companhia de alguém. O amor dança entre dois sorrisos quando existe os desacordos mas se prioriza os acordos. Quando dois cedem e uma decisão é tomada. Quando o meu e o seu sonho abrem espaço para o que sonharemos juntos. 

Se querem saber sobre o amor, a coisa mais próxima que temos do divino, não assistam filmes e novelas. Perguntem aos seus avós. Recorram as gerações passadas em que, quando as coisas estragavam eram consertadas e não descartadas. Pergunte para a esposa que leva com as mãos trêmulas e enrugadas o remédio do senhorzinho de cabeça de algodão deitado naquela cama de hospital. Pergunte aos casais que se casam e suportam alguns meses morando em cidades diferentes enquanto a transferência do trabalho não sai, pela simples vontade de manter o amor que os arrebata. Fale com jovens casais que se casam aos 20 anos pela vontade de ouvir os votos de fidelidade, amor e respeito, ouvir a frase "serei pra sempre sua/seu" e ter certeza que isso é mais valioso que qualquer momento de loucura e liberdade.

Se você quer amar, entenda que quando alcançamos o amor, percebemos que nos aventurar sozinhos não tem mais a mesma graça. A vida sem aquela pessoa já não tem cor e sabor. Porque descobrir o mundo sozinho é bom, pode ser libertador. Mas conhecê-lo com parceiro de vida torna toda a felicidade dobrada. Se acreditamos que amor de família é incondicional e eterno, por que não aplicamos a mesma verdade ao amor que encontramos? Amor é sacrifício. Em todas suas especificidades. Você acredita no amor de sua mãe porque sabe que ela se sacrifica por você. Sabe que gasta até a ultima gota de força pra te proteger. Sabe que ela coloca sua felicidade e suas conquistas acima das dela, que trabalha sem reclamar para que você viva coisas maiores e melhores. Isso é amor. E é isso que faz com que quando encontramos o amor de nossas vidas não o deixemos ir embora: Simplesmente não existe caminho de volta.


Ana Morais

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Percebi hoje que o meu relógio do carro está errado. Além de se recusar a aceitar o horário de verão ele insiste em colocar as horas ao contrário. Meio dia ele grita 23:00h, meia noite decalara 11:00h. Percebi que tenho um relógio do contra. E o que mais me assustou não foi esse fato. Foi a reação que tive quando me perguntaram "Quer que arrume pra você?" "NAO!" respondi de súbito. A verdade é que já estou tão acostumada a olhar, converter mentalmente e aumentar uma hora aqueles números que pra mim isso meio que fazia parte do meu primeiro carrinho. Sorri.

Todos os dias que olho praqueles números mal colocados fico subjetivando a vida. Abstraindo de uma realidade tão medíocre, uma verdade tão profunda: Quantas vezes fiz vista grossa as coisas erradas da minha vida e as deixei permanecer por comodidade? Quantas vezes escolhia o caminho mais cumprido e difícil simplesmente pra não ter que concertar o que estava errado? E o pior: Quantas vezes aceitei com naturalidade que meus erros faziam parte de quem eu era?

 A verdade é que sentia medo de mudar. Medo de que não me sentisse confortável no mesmo casco sabendo que as coisas estavam no lugar. Alguns minutos depois, a mesma pessoa que me ofereceu para arrumar me disse impaciente: COMO VOCÊ AGUENTA? Que agonia desse relógio errado. Olhei praqueles números errados e pensei: Obrigada Senhor, por ter comigo a paciencia que tenho com os números. Sei que eles estão errados, sei que não vão mudar sozinhos, sei que dependem da minha ação para que isso aconteça. Mas os amo mesmo assim. Amo porque eles fazem parte de um presente tão especial pra mim: As horas erradas, o barulho do motor, o amassadinho na traseira. É chocante perceber que os defeitos podem ser exatamente o que faz daquilo algo especial. Sempre adio a arrumação de todos esses defeitos: Amanhã mudo. Depois arrumo. Mas o mais legal é saber que Deus analisa detalhadamente nossas vidas antes de concertar nossos defeitos. As vezes Ele passa anos trabalhando em um e vai deixando os outros enquanto isso. Mas diferente de mim, Deus não procrastina. Ele é exato em tudo que faz. E escrevo isso hoje pra dizer com a maior alegria da minha vida que num intervalo de graça inefável, Deus concertou meu relógio. Deus desamassou meu amassado, consertou o meu motor. E com a sensação do semi novo, me sinto hoje pronta pra descobrir os próximos defeitos onde Ele vai trabalhar. Porque por mais que eu olhe pro meu relógio e ele continue atrasado, Deus olha pra mim e com uma misericórdia sem fim percebe que sou impotente diante de meus erros, percebe que sem Ele, eu nada posso fazer. E a melhor parte: Ele me ama mesmo assim, e por esse amor imensurável, Ele se levante e age na minha vida.