sábado, 20 de junho de 2015

Batidas alheias

- É dificil escolher, odeio opções! - Esperneava a mocinha agoniada encarando seu relógio de bolso que parecia ignorar a pressa alheia e indo devagarzinho, no seu tempo tic-tacando. O cabelo envolto num coque já desfiado era dourado feito ouro, e a maquiagem outrora tão bem feita, já escorria deixando o contorno dos olhos um tanto mais escuro.

Olhou em volta mas, por mais que tentasse, não se lembrava como havia parado ali, naquela sala vazia de piso xadrez e um lustre enorme que balançava lentamente com a brisa que dançava pela cortina empoeirada. Com os dentinhos irregulares mordia os lábios e olhava cuidadosamente cada centímetro do lugar. Ainda tentava agir normalmente e ignorar o fato de que seu relógio de bolso, deixado como herança de seu aconchegante vovô, acabara de lhe dizer a frase por ela mais temida: Você tem que escolher.

Não sabia onde estava, não ardia a certeza nem mesmo de quem era, quanto mais o que queria! Resolveu tomar coragem, olhar aquele relógio bem nos olhos - riu sozinha da própria prosopopéia - e declarar:

- O senhor não recebeu educação? Antes de me dar ordens deveria me dizer o seu nome e para onde me levou!
Falou isso bem rápido, as vezes levando a bolota dos olhos de um lado para o outro certificando de que não havia ninguem mais pra assistir sua esquisitice. Mal terminou de pensar e ouviu como resposta:

- Oras! Eu não tenho um nome. Sou apenas o relógio de bolso do aconchegante vovô Nuno. E se você parasse de se preocupar em resolver tudo tão depressa, teria ouvido um som sorrateiro e adivinharia sua charada de para onde 'eu' - soltou o pronome junto com um som de desprezo - te trouxe. Se é que você acredita mesmo que tenho o poder de te levar a algum lugar!

A menina assustou com o estresse do senhor.
- Tudo bem então. Me desculpe a pressa. É que o tipo de gente que eu sou sempre está correndo atrás de alguma coisa, mesmo que seja do vento. Vamos começar de novo. Como você não tem nome, vou te chamar de Nuno, como o vovô, pode ser?
O rosto do velho e cansado relógio se iluminou.

- Poxa, que honra!
A garota sorriu aliviada por perceber que acalmara a fera emoldurada.

-Tudo bem Nuno, vamos fazer silêncio agora, pra que eu escute o sorrateiro barulho então.
Fechou os olhos, respirou fundo e fez tanta força pra se concentrar que até enrugou os olhos. Devagar começou a sentir uma coisa esquisita, um batido tão forte que parecia vir das paredes mas, ao mesmo tempo de dentro de si. Abriu os olhos assustada, e com um suspiro gritou - mesmo sem querer - NUNO! Eu estou dentro do meu próprio coração???
Seus olhos se enchiam de lágrimas de tão forte e perto que era aquele som que estremecia seus ossos.

-Claro! Às vezes abaixamos tanto o volume do nosso coração que o barulho do coração dos outros sobressai o nosso. Como você quer decidir algo assim? Baseado nas batidas de coração alheias?
A mocinha abaixou os olhos tristonha.

- Eu nunca sei mesmo decidir as coisas. Parece que pra todo lado que eu me decido machuco o coração de alguém, mesmo que sem querer. Nunca vi uma dinâmica tão dificil na vida! Parece que há muito perdi o equilíbrio e harmonia da coisa...
Nuno respirou fundo e esperou que o ponteiro passasse em seus lábios antes de falar.

-Melhor seria se cada um escutasse seu próprio coração e cuidasse muito bem dele, né? Não adianta nada aprender o equilíbrio e harmonia dos outros, se o seu próprio mundo tá sofrendo de arritmia... tem que cuidar desse lugar antes de receber visita, dona apressada.
Essas palavras causaram um sentimento diferente na garota. Coçou o pescoço, suspirou, olhou em volta. Como aquele relógio de bolso tinha razão. Ele parecia mesmo com o vovô Nuno. Mordendo novamente os lábios - dessa vez com um sorriso já arquitetado no rosto - perguntou de uma vez por todas:

- Mas vem cá, meu coração sempre foi mal decorado assim?
-Claro que não! O problema é que você levou tudo que tinha aqui dentro e colocou em corações alheios, meio sem perceber que eles não entregavam nada pra você trazer de volta.
Esse pensamento doeu. Caiu feito um prato de vidro.
... Mas essa é a coisa legal do tempo. Você tem tempo. Pode recomeçar e fazer tudo direito dessa vez. - Completou Nuno sorridente.

A garota sorriu. Deu uma volta pela sala vazia. Tomou coragem e empurrou de súbito as cortinas empoeiradas, permitindo que uma luz forte adentrasse o ambiente. Tossiu umas três vezes enquanto mexia com os braços tentando espalhar a poeira pelo ar.
-Bem, então vou logo começar!