terça-feira, 10 de setembro de 2013

A Vida em metamorfose

- É a vida meu amigo, a vida em metamorfose. - Disse o homem alto que escondia todos os seus sentimentos - e dinheiro - por trás de uma muralha de terno e gravata.

-Nem venha comparar com a transformação de uma borboleta, ou com o crescimento mental ou físico de alguém. A vida tem se metamorfoseado da forma mais triste possível. - Respondeu o homem mais velho, de pele enrugada e unhas sujas de terra. O chapéu de palha já lhe parecia uma segunda pele, seu companheiro fiel que o protegia do sol durante a colheita.

- Como triste? Tudo que você precisa é prestar atenção às placas! Não pare! Fume! Corra! Viva!

-Viva? - Perguntou de forma singela o homem do mato enquanto dava um sorriso cheio de rugas e cansado. Como?

Essa pergunta causou uma certa inquietação no engravatado, que já batia os pés e olhava constantemente no relógio. Bufando, respondeu:

- Oras, como... Como se deve viver! Trabalhar, ganhar dinheiro, viajar...
Nesse momento o homem do mato mudou sua expressão, parecia intrigado...
- Viajar? Vc tem viajado? - perguntou finalmente.
- Claro que sim. Tenho negócios em todo o globo! Difícil é o sr citar um só país que não compre de mim. Tenho tudo que tenho porque batalhei e construí! Trabalhei desde os 14 anos, vida de empreendedor.
- Mas, e a saúde, a família, a esposa? - Perguntou o velho.

- A esposa perdi. Na verdade, perdi as três primeiras. Mas não foi de morte não, bem que podia ser. Me traíram com outro. Filhos tenho também mas todos moram com a mãe.. Saúde... quase 100%. Enfrentei alguns problemas de pele acho que por causa da luz artificial do escritório... Mas sabem o que dizem né? "Ossos do ofício!" Não tem outro jeito de ganhar dinheiro, só se for trabalhando. Afinal, como eu disse, é a vida em metamorfose.

O velho mal teve tempo de esboçar uma resposta, e o homem teve de atender o celular. Atendeu e saiu andando, sem nem lembrar de se despedir. O velho olhou pra senhora que cozia na cadeira de balança ao lado, que durante toda a conversa não mudara muito de expressão. Mas ainda assim o velho decidiu  dizer alguma coisa a respeito.

- É querida. A vida em metamorfose. Metamorfoseando-se em algo sem valor. Algo que já não se respeita mais. Piscamos e a TV já aparece com um modelo novo de algo ainda mais inútil e descartável que o anterior. Colocamos a vida nas coisas e cifrões na vida. A verdade é que ninguém mais sabe segredos de ninguém. O sorriso perdeu seu valor de algo sincero e se transformou em uma máscara que usamos pra evitar aproximação de iguais. Mas o que eles não pensam é que um dia tudo acaba. Um dia a morte chega. E o que importa mesmo não é quantos bens você conquistou e sim quantas pessoas sentirão sua falta.

O barulho da madeira da cadeira em atrito com a madeira do chão era combinado com o tic-tac do relógio quadrado em cima da lareira. A velha, ainda sem expressão, apenas balançou a cabeça. A aliança afundada no dedo combinava com a outra já larga na mão do senhorzinho simpático. Este ficou parado por alguns segundos. As reflexões sobre a morte chegam junto com a velhice. Quando o relógio marcou 4 da tarde, o velho bateu com as duas mãos no joelho, respiirou fundo e se levantou.

- Mas é o nosso filho, vou amá-lo sempre, e foi bom reencontrá-lo depois de tantos anos. Ele tinha razão, conseguiu se virar na vida na cidade grande. Bota mais água no feijão, quem sabe ele não volta pra janta.

E assim passou pela porta, pegou o arreio, e foi tranquilo pro pasto, seu local favorito.

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Eu

A lua e as estrelas me remetem aquele dia, aquele momento, em que por reconhecer a beleza das coisas simples você me fez sorrir pela primeira vez. Fez meus olhos brilharem pela primeira vez. Num ato quase involuntário sua voz passou pelos meus ouvidos e era como se fizesse cócegas em todo meu corpo até que, inevitavelmente, eu sorri.

Aquele sorriso bobo, gostoso, que vem acompanhado de olhos brilhantes que gritam sentimentos. E foi assim, foi ali. Ali que você me ganhou por inteira. Percebi imediatamente que queria essa voz me acariciando todos os dias antes de dormir, queria essa risada eletrizante me eletrizando, queria te ver amar e ser objeto do seu amor. E tudo ali, debaixo do brilho da lua e das estrelas que comparadas ao seu brilho parecem tão opacas. É incompreensível como o amor acontece em questão de segundos e toma tudo da gente: Nossos pensamentos, nosso tempo, nossos sorrisos, nossas lágrimas, nossos beijos, nossos abraços, nossa dor, nosso fim, nosso começo, nosso eu. Esse eu tão meu. Esse eu tão seu.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Hoje não

Normalmente eu só preciso de uma frase perfeita pra continuar um bom texto. Normalmente, não hoje. Hoje não é um dia normal. Normalmente eu gosto de falar sobre pessoas fictícias. Normalmente, não hoje.  Normalmente eu gosto simplesmente de falar. Falar e falar. Normalmente, hoje não. Mas o engraçado, é que todos os dias não tem sido dias normais.

Tenho amado como nunca amei antes. Normalmente, escreveria sobre isso. Sobre ele. Os olhos dele, os lábios, sorriso, tudo dele. Se fosse eu mesma, escreveria sobre a tremedeira que seu olhar me dá. Escreveria sobre os arrepios e sorrisos que seus beijos causam. Normalmente, mas hoje não. Se fosse eu, abriria mão de estilos literários pra escrever sobre um grande amor. Finalmente, o meu amor. Mas não quero ser eu. Não quero fazer as coisas que eu normalmente faria. Hoje não. Hoje vou ser o seu amor.

Hoje vou escrever pra você. Não importa quem você seja. Sinta-se em casa, sinta-se com o seu próprio amor. Sinta-se amado. Tenho aprendido com você, que amor não se escreve. Que ele é ridículo e clichê demais pra ser escrito. Tenho aprendido que o amor não é só um sentimento. Amor é quando você dá risada da minha piada sem graça, ou quando a gente ri de uma coisa que só a gente entende. Tenho aprendido com você que amor é quando você me abraça e parece não querer soltar mais, e principalmente quando você realmente não solta... Porque pra falar a verdade, mesmo depois que você vai embora eu continuo me sentindo abraçado, aconchegado em seus braços, afinal a sensação é boa demais pra acabar.

Tenho aprendido com você que a paciência é a chave da felicidade. Que mesmo brava, você me ama. Ama sim, nem adianta negar. Eu sei pelos seus braços que durante um discurso alterado e eloquente caminham pro meu lado, pedindo um abraço meu. Sei porque leio sua mente, e na verdade, nem precisaria já que ela grita que me ama. Ela grita que você é minha. E sabe de uma coisa? Ainda bem que você é minha. Porque eu, sinceramente, sou totalmente seu.Talvez eu seja mais seu do que você é minha. Mas eu não me importo, fiz de conquistar você a minha sina.

Normalmente a gente foge do amor. Normalmente, mas hoje não. Hoje vou morrer de amor. Ou melhor, vou viver de amor. Vou viver você.