segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Ser plural

Ombro, pescoço, bochechas. Esse era o caminho que a pontinha de seu nariz fazia enquanto entrelaçava os dedos com os dele e se aconchegava ao cheiro de suas roupas. Aquele cheirinho tão dele, tão dela. Sorria tanto que os músculos de sua bochecha doíam e era inevitável tal reação. As sensações que ele causava nela, o coração que batia forte, a respiração sempre ofegante e as borboletas passeando pelo seu corpo só podiam ser expressadas de uma forma: Um sorriso.

Nunca ninguém tinha sido melhor companhia que aquela. Talvez, pouquíssimas vezes tinha sido tão feliz ao lado de alguém. Estava no lugar certo, no ombro certo, pela primeira vez em toda sua vida e lá dentro, no fundo do seu coração desejava que fosse assim por todos os dias que viriam. Desejava aquele sorriso em todas as suas manhãs, aqueles beijos em todas as suas noites, aquele abraço em todas as lágrimas, aquela mão na sua em todas as caminhadas, aquelas roupas dividindo espaço no seu armário, os livros de cálculo e teologia se misturando aos seus romances e os de filosofia na estante. As sapatilhas coloridas numero trinta e cinco se misturando aos tênis brancos e pretos tamanho 40, as duas escovas de dente na pia, os dois pratos à mesa, os dois perfumes na cômoda, os dois travesseiros, um só edredom. O barulho das duas portas do carro se fechando, as duas toalhas dependuradas, os desenhos dele na parede e os textos dela na gaveta. Desejava olhar seus olhos antes de dormir, sabendo que sentiam a mesma coisa. Se separar durante o dia sabendo que são um só mesmo distantes. Tudo que os juntava em plural. Deixar de ser dois, pra se tornar um, deixar de ser singular, pra se tornar plural.

Desejava tudo isso e só dizia num sorriso. Sorria com os olhos, com a boca, com os abraços, com os beijos, com o cheiro, com a saudade. Não mais eu, não mais você. Agora, nós.