quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Eternamente

A música tocava ao fundo enquanto ele ligava o aquecedor do carro. Esfregava as mãos e as soprava numa tentativa de se aquecer. De fora, a chuva caía forte e impiedosa, e ali, parado a porta de seu trabalho ele esperava que ela se acalmasse. A pasta e a gravata, já encostadas no banco ao lado eram as únicas testemunhas daquele momento estranhamente pacífico, talvez o primeiro em meses.

O amor tem esse lado inquietador. Quando ele chega, faz questão de que por um bom tempo as borboletas não saiam do estômago, o pensamento voe adoidado e os olhos corram pelas multidões procurando um certo par.

Mas, pior mesmo é quando ele decide ir embora, como ele tinha certeza que era seu caso. Quando as borboletas iam passear em outros estômagos, os pensamentos voltavam para as velhas e chatas metas do trabalho e os olhos pareciam cansados demais pra assistir o resto da história. E então tudo parecia voltar ao fastio. Os pés tocavam o chão novamente, a cabeça caía das nuvens e os pássaros paravam de cantar.

 Ele não se importaria se tudo fosse embora. O difícil, é lidar com o que fica. Com a saudade, com a vontade, com a ideia de não mais pertencer. "Não mais pertencer?" pensava com seus botões. Vivera sem ela por trinta anos, mas, já não sabia mais como seria não pertencer. Talvez seja por isso que alimentava um sentimento de pertencimento, que, mesmo ilusório, ajudava nos momentos difíceis.

Não se lembrava o motivo da primeira briga, ou da segunda, terceira. Mas se lembrava dela. Do sorriso dela. Do cabelo dela. Das mãos dela. Dos olhos dela. Do abraço dela. Do perfume dela. Tudo que era dela, que pertencia a ele. Ao pensar nisso, teve que admitir a volta de duas ou três borboletas. Essa era a ilusão que ele alimentava em sua mente.. Um sentimento de pertencimento...

Ia pensando nisso quando seus olhos se contraíram pela forte luz do farol de um carro que estacionara a sua frente. Dele, desceu uma mulher com os olhos fundos e vermelhos que deduravam suas horas de choro. Ela não se importou com a chuva, e em segundos já estava encharcada.

Seus olhos não tiveram dificuldade - pela falta da multidão - para encontrar o dito par. E seus lábios menos ainda de se abrirem em um sorriso que casou com o dela. Os pensamentos nem voaram muito e chegaram a uma conclusão "As vezes o sentimento de pertencimento só mora mesmo em quem pertence eternamente a alguém."

Nenhum comentário:

Postar um comentário