sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Um novo par de asas!

Engoli seco enquanto olhava meu reflexo no espelho. Todos os pêlos do meu corpo se levantaram quando tive a ousadia de encostar com a ponta dos meus dedos aquilo que sem dúvida não era normal.
Mas se tudo estava estranho, dali pra frente ficaria pior.
Meus olhos se encheram de gotinhas salgadas que insistiram em cair assim que pela janela entrou um panapaná todo colorido, com borboletas azuis, amarelas e roxas. Exatamente as cores que estampavam meu novo par de asas.

Quando ouvi meus pensamentos - que praticamente gritavam  "PAR DE ASAS!" - a ideia me soou tão idiota que não podia fazer nada além de cair na risada.
" E se for algum tipo de doença? E se..."
Nem pude terminar minha sessão de indagações porque o silencio do quarto foi quebrado pelas batidas fortes na porta.
"Filha? Já está acordada? Temos uma surpresa na cozinha!"
A voz rouca de meu pai me trouxe a certeza de que aquele absurdo não era um sonho.

"Que desespero! Grande assim, vai ser impossível de esconder... Será que nunca mais vai sumir?"
Fiquei presa em pensamentos e me esqueci de responder, o que aumentou a intensidade e a frequencia das batidas e o tom de preocupação já modelava as graves e roucas notas:
" Laura? Está tudo bem? Eu vou entrar! "

Comecei a espantar as borboletas que posaram por toda a parte e meu coração foi a mil quando ouvi o barulho da porta se abrindo. Olhei para ele com a melhor expressão que consegui, mas já sabendo que ele estaria desmaiando de susto.

Pra minha surpresa ele sorriu como se não houvesse nada de diferente. Sua reação levou meus olhos a correrem de encontro ao espelho e elas já não estavam mais lá. Nem as borboletas, nem as asas. Não sabia bem se era um alívio ou o anuncio da minha insanidade, mas nem tive tempo de pensar nisso já que meu pai se apressou em me levar - praticamente carregar - para a cozinha que estava com alguns balões e um bolo em cima da mesa. Sorri.

"Parabéns filha! Nem acredito que já tem treze anos! " Foi o que a doce voz da minha mãe - que parecia flutuar no ar - desenhou dentro de um abraço. Minha vontade era despencar em choro e contar que eu possivelmente morreria logo por uma anomalia extrema. Mas ela não entenderia...Quer dizer, nem eu entendia!

Comi um pedaço do bolo e voltei pro quarto, todo meu corpo doía e quando minha mãe detectou febre, sugeriu que tomasse algum remédio pra gripe. "Pobre coitada, se soubesse..." pensei. Escondi esse pensamento o melhor que pude só pra despistar todas as perguntas.

Quando abri a porta do quarto, quase acreditei que o que vivi algumas horas mais cedo havia sido um engano, uma miragem ou algo assim. Tudo estava tão normal quanto pode ser. Andando sobre as pontas dos pés, fui entrando com medo de alguma coisa que nem eu mesma sabia o que. Por algumas horas tudo ficou em silêncio enquanto eu sentada na cama, tentava esquecer a cena. Foi quando olhei para o lado, e vi uma - apenas uma - borboleta que pousara serenamente no corrimão da sacada.

Estremeci. Suas asas eram imensas e brancas e ela parecia pronta para voar. Resolvi morder a isca. Cheguei mais perto para apreciá-la e quase morri de susto quando quando ouvi uma voz grossa que aparentemente saía dela - ou dele, questionei.

"Olá minha querida, fico feliz que esse dia tenha chegado."
"C-como é? V-você fala?"
"Claro que falo!"
"M-mas como eu nunca ouvi antes?"
"Porque as pessoas insistem nessa pergunta? Sabem que não prestam atenção nem quando escutam uns aos outros, quanto mais para ouvir a voz que vem de algo 'impossível' "

Tive de concordar. A voz era aconchegante e convidativa, e eu nem percebia estar falando com uma borboleta.

"Como é seu nome?"
"Óh como tenho sido mal educado, me perdoe! Meu nome é Ágape e é um prazer finalmente ser ouvido por você!"
"Então você já tentou antes? Me conhecia?"
"É claro, te conheço há muitos anos mas não se culpe por nunca ter me escutado, você apenas não estava pronta!"
" Certo mas, o que você veio fazer aqui?"
"Além de te dar um dos mais belos pares de asas do mundo? Vim ensiná-la a usá-las."

Laura viu com o canto de olho que elas estavam de volta, pareciam maiores, mais fortes e mais coloridas sob a luz do sol. Pensou que não seria tão dificil assim se acostumar com aquilo.

"Usá-las? Eu mal acostumei com elas e já tenho que saber voar?"

Seu coração batia forte. Se sentia estranha, meio insana por se sentir tão confortável conversando com uma borboleta.

"Você sempre teve asas. Mas agora, vou te ensinar e permitir que você voe."
"Eu não conseguiria! É impossível! "
"Se você ouvisse mais a minha voz saberia que nada é realmente impossível."
E ao dizer isso, Laura jurou que vira um sorriso se arquitetando na face dele.

"Mas, e se eu cair? E se eu errar? "
"Eu não vou deixar você sozinha, estarei com você sempre, eu prometo!"

Essas palavras trouxeram uma coragem inesperada. Laura sorriu, e dando uma piscadela perguntou:
"Ok, como podemos começar?"

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Algumas vezes a verdade está onde não passados os olhos duas vezes.