quinta-feira, 10 de junho de 2010

Narração livre - " Little angel"





 Tudo aconteceu em uma madrugada de sábado para domingo. Eu havia chegado um pouco atrasada para plantão e mal sabia que naquela noite algo mudaria pra mim. Eu era uma pessoa triste e orgulhosa e realmente precisava ser mudada.
 Cheguei por volta da meia niote e fui correndo vestir as roupas, tudo estava um caos, um grande acidente envolvendo três carros havia acontecido e éramos o pronto-socorro mais próximo, por isso colocaram toda a equipe de cirurgiões a postos para receber as vítimas. Poucos segundos depois, aquele lugar parecia o inferno. O barulho de sirene era insuportavel e parecia nao acavabar mais, uma ambulância atrás da outra chegavam trazendo pessoas com a vida por um fio, e finalmente os gritos de dor e desespero anunciavam uma longa noite de luta entre a vida e a morte e tudo isso dependia de nós, humanos privados de qualquer emoção ou sentimentalismo para honrar a profissao: brincar de Deus e salvar vidas.
 Fiquei com duas pacientes, uma mulher de 34 anos e sua filha de 5, ambas muito machucadas. A mãe aparentemente nao corria risco de vida, era uma mulher linda, morena com traços orientais e mesmo com a dor que estava passando, parecia a mais calma do lugar - mais calma que os próprios médicos - A primeira fala foi:
- Eu não me importo de morrer, salve minha filha antes!
Aquilo me comoveu, e me fez procurar pela menina, escutei a voz de uma anjinha cantando olhei para o lado e lá estava o anjinho com 60% do corpo queimado, nervos expostos e com certeza muita dor. Por alguns segundos fiquei paralisada com a imagem, simplismente não era justo. Cheguei perto e por incrivel que pareça ela nao chorava nem gritava, além de cantar, sorria; aquilo até me acalmou um pouco, ver que ela estava tao tranquila. Um pedacinho do céu em meio ao inferno. A música era uma melodia calma sobre coisas do céu adorando o próprio Deus e aquela anjinha o entoava em alto e bom som para quem quisesse ouvir.
  Fui checar os sinais vitais e por mais que ela cantasse, não respirava bem. Inalara muita fumaça e por ser tão nova não viveria por tanto tempo, e aquela anjinha usava seu último fôlego para cantar. Foi ali que percebi: meu orgulho estava sendo quebrado, não conseguiria salvar aquela anjinha; acho que ela percebeu minha batalha interna, porque olhou para mim como se tivesse me notado ali pela primeira vez:
- Está tudo bem, Ele disse que a dor vai passar logo. Eu vou dormir um pouco agora, diz para mamae que vou estar sempre com ela.
Seus olhinhos se fecharam. Naquele momento, ela sentiu a sensação de estar voando, e eu pela primeira vez, a de não estar no controle.

2 comentários:

  1. A ideia de escrever...Nascem em um daqueles momentos em que os ideais da mocidade arde ardentemente em nossos pensamentos como uma chama que o tempo se mostra incapaz de apagar... E para aqueles que se encontram senssibilizados com a vida é facil deixar fluir para uma folha de papel como esta as inumeras facetas dos mais intimos sentimentos que movem e comovem todaq uma geração....Autor...Uander...E-mail. Wanderaldias@gmail.com

    ResponderExcluir
  2. A VIDA DE CADA SER... Gira sempre em torno de um único período de tempo, um período, que define para sempre quem somos e o que iremos fazer. Tudo é avaliado e observado a partir da perspectiva que se seguirá ao longo de seus dias. O que veio antes é um breve prólogo;
    o que vem depois é, na pior das hipóteses, uma longa e elaborada nota de rodapé que cada um poderá deixar escrito de si...Autor.Uander. Wanderaldias@hotmail.com

    ResponderExcluir