quinta-feira, 31 de agosto de 2017

O conjunto do que o amor nos faz

Quem somos nós?

As memórias do que vivemos, o medo do que ainda não conhecemos ou a certeza do que já conquistamos?

Como conseguimos ser tantos dentro de um só desenho? Como uma carcaça contaminada e moribunda carrega dentro de si tanta vida e a alma de alguém que nunca vai morrer? Pq no fundo é isso. Não somos como nos parecemos. Não somos quem dizemos ou desenhamos ser.

Somos o invisível. O abstrato. O paladar que anseia pelo doce e abomina o azedo. O ouvido que assim como o resto do corpo foi crescendo de gosto e desobedeceu a si mesmo tantas vezes. Ouviu o rock mas sussurrou um axe. Se entregou ao punk, mas chorou com sertanejo. Decorou o rap mas se pegou destruído, assobiando um pagode.

Somos por fim a descoberta de que sempre estávamos errados? Ou apenas um labirinto que de começo parece rápido de desvendar? Um caminho sinuoso que pensamos ser fortes o suficiente pra trilhar sozinhos. Ingênuos batendo nos próprios peitos bravejando nossos currículos extensos. Como se os desafios fossem enfrentados pelo que trazemos em nossas mãos, o que com elas podemos conquistar.

E como somos infelizes por pensar assim. Acontece que a gente precisa errar pra abaixar o queixo e entender que não tem coroa nenhuma pra cair. O que temos sim são mãos vazias, machucadas e manchadas por nossas decisões precipitadas. E o que define o que somos é exatamente esse momento de encontro frustrante com nossa alma envelhecida e cansada.

É quando olhamos em volta e percebemos que toda a auto suficiente tão meticulosamente anunciada se derrete com a voz que fala do outro lado da linha. No momento que percebemos que aquelas mãos enrugadas e trêmulas que seguram o telefone - e antes seguravam todos os nossos corpos e sonhos - são as verdadeiras responsáveis por te segurarem em pé. Quando nos percebemos vulneráveis ao amor. Quando aceitamos que alguém segura nosso coração nas mãos e é capaz de esmaga-lo quando quiser. Somos o momento que decidimos correr o risco. O risco de assumir que somos na verdade, o conjunto do que o amor nos faz. Das pessoas que nos amam e nos carregam em suas mãos. Não somos quando estamos sós. Somos em plural. Tanto na presença quanto na ausência.

segunda-feira, 4 de julho de 2016

Se decidirmos, nós sempre ficaremos com os amores de nossas vidas.

Meus amigos do facebook compartilharam aos montes um texto sobre como as vezes o amor de nossas vidas escapa pelos nossos dedos. Que me desculpem os fatalistas, mas não consigo participar desse grupo de pessoas que acredita que amor é essa loucura sobrenatural que nos tira da realidade. Não consigo crer que ele vai me trazer arrepios e que dentro dele as borboletas nunca vão deixar meu estômago. Não consigo ver amor na emoção a flor da pele, no toque eletrizante, na tremedeira da insegurança. Acredito que isso seja paixão. E paixão, meu bem, nunca colocou aliança no dedo de ninguém.

Vivemos numa geração que minimiza e objetiva praticamente tudo que se possa comercializar. Fomos convencidos que de que somos o centro do mundo, de que nossa felicidade é a mais plena regra que deve reger o universo, que estamos vivos e isso é tudo. Desaprendemos a consertar as coisas, abraçamos de olhos fechados a obsolescência programada, enjoamos das coisas, das pessoas e dos sentimentos com a mesma facilidade e velocidade com que enjoamos daquela música depois de que a ouvimos cem vezes seguidas. E nesse cenário o amor não sobrevive. Não em sua mais pura essência e beleza. Não em sua mais profunda e avassaladora forma. Não é a toa que escrevemos menos romances, compomos menos sinfonias, perdemos o jeito ao falar de fidelidade. Somos, infelizmente, uma geração que nem sequer é fiel a um time só de futebol, que dirá a um grande amor que teria potencial para durar a vida toda? Fidelidade a que? a quem? Por quê? E amor não respira sem fidelidade. 

Acredito que aqui mora o nosso problema: Desconstruímos absolutamente todos os valores que são necessários a sobrevivencia de um amor, e o assistimos definhar, levando consigo nosso verdadeiro valor e sonhos. Um amor não divide espaço com o egoísmo. Ele não conhece o "eu", só se pode conjugá-lo com o "nós". Dentro de um amor, o que rege o universo não é a minha felicidade e sim a felicidade do meu amor. Assistimos tantos seriados dramáticos que desvalorizamos uma vida tranquila, paciente, mansa. Queremos o espetáculo, a briga, as lágrimas, o barulho da porta batendo com raiva, a ligação rejeitada, a possibilidade de abandonar o compromisso diante da primeira dificuldade. Entendemos que ser livre é poder permanecer exatamente como somos e ser idolatrados por isso. Não entendemos que liberdade é exatamente o contrário: É ser livre pra mudar, consertar nossos erros, negar nosso ego e decidir ficar. Liberdade é conseguir mudar por amor e continuar sendo a mesma pessoa. Liberdade que nos afirma é solidão. Liberdade que nos transforma é comunhão.

Não acredito que deixamos o grande amor de nossas vidas escapar pelo simples fato de que acredito que o amor é exatamente o que permanece. Amor é calmaria, é certeza, é companheirismo, compreensão, fidelidade, gratidão. Amor é ação, decisão, raciocínio. Mas quem tem coragem de amar? Não é coisa para qualquer pessoa. Amar exige maturidade, altruísmo, humildade, respeito. Ele aparece quando as borboletas vão embora, a tremedeira se encerra, o suor das mãos seca. Ele se manifesta quando toda essa loucura boa da paixão passa e você ainda assim deseja ficar. Quando mesmo diante de todos os defeitos e discussões, você ainda assim, sente prazer na companhia de alguém. O amor dança entre dois sorrisos quando existe os desacordos mas se prioriza os acordos. Quando dois cedem e uma decisão é tomada. Quando o meu e o seu sonho abrem espaço para o que sonharemos juntos. 

Se querem saber sobre o amor, a coisa mais próxima que temos do divino, não assistam filmes e novelas. Perguntem aos seus avós. Recorram as gerações passadas em que, quando as coisas estragavam eram consertadas e não descartadas. Pergunte para a esposa que leva com as mãos trêmulas e enrugadas o remédio do senhorzinho de cabeça de algodão deitado naquela cama de hospital. Pergunte aos casais que se casam e suportam alguns meses morando em cidades diferentes enquanto a transferência do trabalho não sai, pela simples vontade de manter o amor que os arrebata. Fale com jovens casais que se casam aos 20 anos pela vontade de ouvir os votos de fidelidade, amor e respeito, ouvir a frase "serei pra sempre sua/seu" e ter certeza que isso é mais valioso que qualquer momento de loucura e liberdade.

Se você quer amar, entenda que quando alcançamos o amor, percebemos que nos aventurar sozinhos não tem mais a mesma graça. A vida sem aquela pessoa já não tem cor e sabor. Porque descobrir o mundo sozinho é bom, pode ser libertador. Mas conhecê-lo com parceiro de vida torna toda a felicidade dobrada. Se acreditamos que amor de família é incondicional e eterno, por que não aplicamos a mesma verdade ao amor que encontramos? Amor é sacrifício. Em todas suas especificidades. Você acredita no amor de sua mãe porque sabe que ela se sacrifica por você. Sabe que gasta até a ultima gota de força pra te proteger. Sabe que ela coloca sua felicidade e suas conquistas acima das dela, que trabalha sem reclamar para que você viva coisas maiores e melhores. Isso é amor. E é isso que faz com que quando encontramos o amor de nossas vidas não o deixemos ir embora: Simplesmente não existe caminho de volta.


Ana Morais

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Percebi hoje que o meu relógio do carro está errado. Além de se recusar a aceitar o horário de verão ele insiste em colocar as horas ao contrário. Meio dia ele grita 23:00h, meia noite decalara 11:00h. Percebi que tenho um relógio do contra. E o que mais me assustou não foi esse fato. Foi a reação que tive quando me perguntaram "Quer que arrume pra você?" "NAO!" respondi de súbito. A verdade é que já estou tão acostumada a olhar, converter mentalmente e aumentar uma hora aqueles números que pra mim isso meio que fazia parte do meu primeiro carrinho. Sorri.

Todos os dias que olho praqueles números mal colocados fico subjetivando a vida. Abstraindo de uma realidade tão medíocre, uma verdade tão profunda: Quantas vezes fiz vista grossa as coisas erradas da minha vida e as deixei permanecer por comodidade? Quantas vezes escolhia o caminho mais cumprido e difícil simplesmente pra não ter que concertar o que estava errado? E o pior: Quantas vezes aceitei com naturalidade que meus erros faziam parte de quem eu era?

 A verdade é que sentia medo de mudar. Medo de que não me sentisse confortável no mesmo casco sabendo que as coisas estavam no lugar. Alguns minutos depois, a mesma pessoa que me ofereceu para arrumar me disse impaciente: COMO VOCÊ AGUENTA? Que agonia desse relógio errado. Olhei praqueles números errados e pensei: Obrigada Senhor, por ter comigo a paciencia que tenho com os números. Sei que eles estão errados, sei que não vão mudar sozinhos, sei que dependem da minha ação para que isso aconteça. Mas os amo mesmo assim. Amo porque eles fazem parte de um presente tão especial pra mim: As horas erradas, o barulho do motor, o amassadinho na traseira. É chocante perceber que os defeitos podem ser exatamente o que faz daquilo algo especial. Sempre adio a arrumação de todos esses defeitos: Amanhã mudo. Depois arrumo. Mas o mais legal é saber que Deus analisa detalhadamente nossas vidas antes de concertar nossos defeitos. As vezes Ele passa anos trabalhando em um e vai deixando os outros enquanto isso. Mas diferente de mim, Deus não procrastina. Ele é exato em tudo que faz. E escrevo isso hoje pra dizer com a maior alegria da minha vida que num intervalo de graça inefável, Deus concertou meu relógio. Deus desamassou meu amassado, consertou o meu motor. E com a sensação do semi novo, me sinto hoje pronta pra descobrir os próximos defeitos onde Ele vai trabalhar. Porque por mais que eu olhe pro meu relógio e ele continue atrasado, Deus olha pra mim e com uma misericórdia sem fim percebe que sou impotente diante de meus erros, percebe que sem Ele, eu nada posso fazer. E a melhor parte: Ele me ama mesmo assim, e por esse amor imensurável, Ele se levante e age na minha vida.

sábado, 20 de junho de 2015

Batidas alheias

- É dificil escolher, odeio opções! - Esperneava a mocinha agoniada encarando seu relógio de bolso que parecia ignorar a pressa alheia e indo devagarzinho, no seu tempo tic-tacando. O cabelo envolto num coque já desfiado era dourado feito ouro, e a maquiagem outrora tão bem feita, já escorria deixando o contorno dos olhos um tanto mais escuro.

Olhou em volta mas, por mais que tentasse, não se lembrava como havia parado ali, naquela sala vazia de piso xadrez e um lustre enorme que balançava lentamente com a brisa que dançava pela cortina empoeirada. Com os dentinhos irregulares mordia os lábios e olhava cuidadosamente cada centímetro do lugar. Ainda tentava agir normalmente e ignorar o fato de que seu relógio de bolso, deixado como herança de seu aconchegante vovô, acabara de lhe dizer a frase por ela mais temida: Você tem que escolher.

Não sabia onde estava, não ardia a certeza nem mesmo de quem era, quanto mais o que queria! Resolveu tomar coragem, olhar aquele relógio bem nos olhos - riu sozinha da própria prosopopéia - e declarar:

- O senhor não recebeu educação? Antes de me dar ordens deveria me dizer o seu nome e para onde me levou!
Falou isso bem rápido, as vezes levando a bolota dos olhos de um lado para o outro certificando de que não havia ninguem mais pra assistir sua esquisitice. Mal terminou de pensar e ouviu como resposta:

- Oras! Eu não tenho um nome. Sou apenas o relógio de bolso do aconchegante vovô Nuno. E se você parasse de se preocupar em resolver tudo tão depressa, teria ouvido um som sorrateiro e adivinharia sua charada de para onde 'eu' - soltou o pronome junto com um som de desprezo - te trouxe. Se é que você acredita mesmo que tenho o poder de te levar a algum lugar!

A menina assustou com o estresse do senhor.
- Tudo bem então. Me desculpe a pressa. É que o tipo de gente que eu sou sempre está correndo atrás de alguma coisa, mesmo que seja do vento. Vamos começar de novo. Como você não tem nome, vou te chamar de Nuno, como o vovô, pode ser?
O rosto do velho e cansado relógio se iluminou.

- Poxa, que honra!
A garota sorriu aliviada por perceber que acalmara a fera emoldurada.

-Tudo bem Nuno, vamos fazer silêncio agora, pra que eu escute o sorrateiro barulho então.
Fechou os olhos, respirou fundo e fez tanta força pra se concentrar que até enrugou os olhos. Devagar começou a sentir uma coisa esquisita, um batido tão forte que parecia vir das paredes mas, ao mesmo tempo de dentro de si. Abriu os olhos assustada, e com um suspiro gritou - mesmo sem querer - NUNO! Eu estou dentro do meu próprio coração???
Seus olhos se enchiam de lágrimas de tão forte e perto que era aquele som que estremecia seus ossos.

-Claro! Às vezes abaixamos tanto o volume do nosso coração que o barulho do coração dos outros sobressai o nosso. Como você quer decidir algo assim? Baseado nas batidas de coração alheias?
A mocinha abaixou os olhos tristonha.

- Eu nunca sei mesmo decidir as coisas. Parece que pra todo lado que eu me decido machuco o coração de alguém, mesmo que sem querer. Nunca vi uma dinâmica tão dificil na vida! Parece que há muito perdi o equilíbrio e harmonia da coisa...
Nuno respirou fundo e esperou que o ponteiro passasse em seus lábios antes de falar.

-Melhor seria se cada um escutasse seu próprio coração e cuidasse muito bem dele, né? Não adianta nada aprender o equilíbrio e harmonia dos outros, se o seu próprio mundo tá sofrendo de arritmia... tem que cuidar desse lugar antes de receber visita, dona apressada.
Essas palavras causaram um sentimento diferente na garota. Coçou o pescoço, suspirou, olhou em volta. Como aquele relógio de bolso tinha razão. Ele parecia mesmo com o vovô Nuno. Mordendo novamente os lábios - dessa vez com um sorriso já arquitetado no rosto - perguntou de uma vez por todas:

- Mas vem cá, meu coração sempre foi mal decorado assim?
-Claro que não! O problema é que você levou tudo que tinha aqui dentro e colocou em corações alheios, meio sem perceber que eles não entregavam nada pra você trazer de volta.
Esse pensamento doeu. Caiu feito um prato de vidro.
... Mas essa é a coisa legal do tempo. Você tem tempo. Pode recomeçar e fazer tudo direito dessa vez. - Completou Nuno sorridente.

A garota sorriu. Deu uma volta pela sala vazia. Tomou coragem e empurrou de súbito as cortinas empoeiradas, permitindo que uma luz forte adentrasse o ambiente. Tossiu umas três vezes enquanto mexia com os braços tentando espalhar a poeira pelo ar.
-Bem, então vou logo começar!

terça-feira, 10 de setembro de 2013

A Vida em metamorfose

- É a vida meu amigo, a vida em metamorfose. - Disse o homem alto que escondia todos os seus sentimentos - e dinheiro - por trás de uma muralha de terno e gravata.

-Nem venha comparar com a transformação de uma borboleta, ou com o crescimento mental ou físico de alguém. A vida tem se metamorfoseado da forma mais triste possível. - Respondeu o homem mais velho, de pele enrugada e unhas sujas de terra. O chapéu de palha já lhe parecia uma segunda pele, seu companheiro fiel que o protegia do sol durante a colheita.

- Como triste? Tudo que você precisa é prestar atenção às placas! Não pare! Fume! Corra! Viva!

-Viva? - Perguntou de forma singela o homem do mato enquanto dava um sorriso cheio de rugas e cansado. Como?

Essa pergunta causou uma certa inquietação no engravatado, que já batia os pés e olhava constantemente no relógio. Bufando, respondeu:

- Oras, como... Como se deve viver! Trabalhar, ganhar dinheiro, viajar...
Nesse momento o homem do mato mudou sua expressão, parecia intrigado...
- Viajar? Vc tem viajado? - perguntou finalmente.
- Claro que sim. Tenho negócios em todo o globo! Difícil é o sr citar um só país que não compre de mim. Tenho tudo que tenho porque batalhei e construí! Trabalhei desde os 14 anos, vida de empreendedor.
- Mas, e a saúde, a família, a esposa? - Perguntou o velho.

- A esposa perdi. Na verdade, perdi as três primeiras. Mas não foi de morte não, bem que podia ser. Me traíram com outro. Filhos tenho também mas todos moram com a mãe.. Saúde... quase 100%. Enfrentei alguns problemas de pele acho que por causa da luz artificial do escritório... Mas sabem o que dizem né? "Ossos do ofício!" Não tem outro jeito de ganhar dinheiro, só se for trabalhando. Afinal, como eu disse, é a vida em metamorfose.

O velho mal teve tempo de esboçar uma resposta, e o homem teve de atender o celular. Atendeu e saiu andando, sem nem lembrar de se despedir. O velho olhou pra senhora que cozia na cadeira de balança ao lado, que durante toda a conversa não mudara muito de expressão. Mas ainda assim o velho decidiu  dizer alguma coisa a respeito.

- É querida. A vida em metamorfose. Metamorfoseando-se em algo sem valor. Algo que já não se respeita mais. Piscamos e a TV já aparece com um modelo novo de algo ainda mais inútil e descartável que o anterior. Colocamos a vida nas coisas e cifrões na vida. A verdade é que ninguém mais sabe segredos de ninguém. O sorriso perdeu seu valor de algo sincero e se transformou em uma máscara que usamos pra evitar aproximação de iguais. Mas o que eles não pensam é que um dia tudo acaba. Um dia a morte chega. E o que importa mesmo não é quantos bens você conquistou e sim quantas pessoas sentirão sua falta.

O barulho da madeira da cadeira em atrito com a madeira do chão era combinado com o tic-tac do relógio quadrado em cima da lareira. A velha, ainda sem expressão, apenas balançou a cabeça. A aliança afundada no dedo combinava com a outra já larga na mão do senhorzinho simpático. Este ficou parado por alguns segundos. As reflexões sobre a morte chegam junto com a velhice. Quando o relógio marcou 4 da tarde, o velho bateu com as duas mãos no joelho, respiirou fundo e se levantou.

- Mas é o nosso filho, vou amá-lo sempre, e foi bom reencontrá-lo depois de tantos anos. Ele tinha razão, conseguiu se virar na vida na cidade grande. Bota mais água no feijão, quem sabe ele não volta pra janta.

E assim passou pela porta, pegou o arreio, e foi tranquilo pro pasto, seu local favorito.

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Eu

A lua e as estrelas me remetem aquele dia, aquele momento, em que por reconhecer a beleza das coisas simples você me fez sorrir pela primeira vez. Fez meus olhos brilharem pela primeira vez. Num ato quase involuntário sua voz passou pelos meus ouvidos e era como se fizesse cócegas em todo meu corpo até que, inevitavelmente, eu sorri.

Aquele sorriso bobo, gostoso, que vem acompanhado de olhos brilhantes que gritam sentimentos. E foi assim, foi ali. Ali que você me ganhou por inteira. Percebi imediatamente que queria essa voz me acariciando todos os dias antes de dormir, queria essa risada eletrizante me eletrizando, queria te ver amar e ser objeto do seu amor. E tudo ali, debaixo do brilho da lua e das estrelas que comparadas ao seu brilho parecem tão opacas. É incompreensível como o amor acontece em questão de segundos e toma tudo da gente: Nossos pensamentos, nosso tempo, nossos sorrisos, nossas lágrimas, nossos beijos, nossos abraços, nossa dor, nosso fim, nosso começo, nosso eu. Esse eu tão meu. Esse eu tão seu.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Hoje não

Normalmente eu só preciso de uma frase perfeita pra continuar um bom texto. Normalmente, não hoje. Hoje não é um dia normal. Normalmente eu gosto de falar sobre pessoas fictícias. Normalmente, não hoje.  Normalmente eu gosto simplesmente de falar. Falar e falar. Normalmente, hoje não. Mas o engraçado, é que todos os dias não tem sido dias normais.

Tenho amado como nunca amei antes. Normalmente, escreveria sobre isso. Sobre ele. Os olhos dele, os lábios, sorriso, tudo dele. Se fosse eu mesma, escreveria sobre a tremedeira que seu olhar me dá. Escreveria sobre os arrepios e sorrisos que seus beijos causam. Normalmente, mas hoje não. Se fosse eu, abriria mão de estilos literários pra escrever sobre um grande amor. Finalmente, o meu amor. Mas não quero ser eu. Não quero fazer as coisas que eu normalmente faria. Hoje não. Hoje vou ser o seu amor.

Hoje vou escrever pra você. Não importa quem você seja. Sinta-se em casa, sinta-se com o seu próprio amor. Sinta-se amado. Tenho aprendido com você, que amor não se escreve. Que ele é ridículo e clichê demais pra ser escrito. Tenho aprendido que o amor não é só um sentimento. Amor é quando você dá risada da minha piada sem graça, ou quando a gente ri de uma coisa que só a gente entende. Tenho aprendido com você que amor é quando você me abraça e parece não querer soltar mais, e principalmente quando você realmente não solta... Porque pra falar a verdade, mesmo depois que você vai embora eu continuo me sentindo abraçado, aconchegado em seus braços, afinal a sensação é boa demais pra acabar.

Tenho aprendido com você que a paciência é a chave da felicidade. Que mesmo brava, você me ama. Ama sim, nem adianta negar. Eu sei pelos seus braços que durante um discurso alterado e eloquente caminham pro meu lado, pedindo um abraço meu. Sei porque leio sua mente, e na verdade, nem precisaria já que ela grita que me ama. Ela grita que você é minha. E sabe de uma coisa? Ainda bem que você é minha. Porque eu, sinceramente, sou totalmente seu.Talvez eu seja mais seu do que você é minha. Mas eu não me importo, fiz de conquistar você a minha sina.

Normalmente a gente foge do amor. Normalmente, mas hoje não. Hoje vou morrer de amor. Ou melhor, vou viver de amor. Vou viver você.

sábado, 3 de novembro de 2012



Que me desculpem aqueles que não sabem amar mas, não consigo escrever sobre outra coisa se não o amor. Mentiria se dissesse que sempre sinto os sentimentos que escrevo mas, a magia de escrever é essa. É ser tão amante do amor que posso escrever sobre ele mesmo quando a situação de minhas personagens não  sejam uma projeção de minha vida pessoal.
 Aprecio. Observo. Absorvo. Sinto-o só de olhar outro alguém senti-lo. Sonho com a possibilidade de fazer você, leitor, senti-lo mesmo que por um instante. Enquanto vive a vida dessas pessoas que vivem em minha imaginação. Desses apaixonados que querem te contar uma história de amor. Talvez, das mais improváveis, talvez, tão próxima a sua realidade. Seja como for, quero dividi-los com você. Dividir esse meu título de "eterna apaixonada" e esse sentimento de amar ao ver o amor. Afinal, uma dose deste sempre cai bem.
 Sim, atendo por esse título. Eterna apaixonada. Por tudo e por todos. Sem dúvida, tenho um sério caso de amor com a alegria mas, sempre a traio com o drama. Penso que é impossível amar sem um turbilhão de diferentes emoções.E quanto mais dramático e intenso, melhor o amor. Me prende. Me fascina. Os sorrisos bobos, as mãos suadas, as pernas trêmulas. A saudade instantânea, o cantarolar distraído, as lágrimas por não conseguir se conter. As brigas barulhentas e os beijinhos de paz. Os "eu te amo" ditos e os não ditos. Todas essas coisas que quem ama trás na mala.
 E por todos esses motivos, sempre que vejo a página em branco, pronta pra ser preenchida com letrinhas e sentimentos, penso no amor. E sempre vou dar mais e mais chances a ele. Na verdade, ele que sempre me dá mais uma chance. De fugir do óbvio, de admirar o raro, de amar até os desamores. Uma chance de sair da rotina e da realidade, sim, de sair. Sair dançando, voando, cantarolando pelos quatro ventos. Com um sorriso que conta pra quem souber me ler que enquanto houver sol, haverá amor. E enquanto houver amor, eu o usarei como um óculos cuja lente faz com que eu veja tudo mais colorido, mais poético, mais musical. Afinal, já dizia Quintana: "Tão bom morrer de amor e continuar vivendo..."

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Ser plural

Ombro, pescoço, bochechas. Esse era o caminho que a pontinha de seu nariz fazia enquanto entrelaçava os dedos com os dele e se aconchegava ao cheiro de suas roupas. Aquele cheirinho tão dele, tão dela. Sorria tanto que os músculos de sua bochecha doíam e era inevitável tal reação. As sensações que ele causava nela, o coração que batia forte, a respiração sempre ofegante e as borboletas passeando pelo seu corpo só podiam ser expressadas de uma forma: Um sorriso.

Nunca ninguém tinha sido melhor companhia que aquela. Talvez, pouquíssimas vezes tinha sido tão feliz ao lado de alguém. Estava no lugar certo, no ombro certo, pela primeira vez em toda sua vida e lá dentro, no fundo do seu coração desejava que fosse assim por todos os dias que viriam. Desejava aquele sorriso em todas as suas manhãs, aqueles beijos em todas as suas noites, aquele abraço em todas as lágrimas, aquela mão na sua em todas as caminhadas, aquelas roupas dividindo espaço no seu armário, os livros de cálculo e teologia se misturando aos seus romances e os de filosofia na estante. As sapatilhas coloridas numero trinta e cinco se misturando aos tênis brancos e pretos tamanho 40, as duas escovas de dente na pia, os dois pratos à mesa, os dois perfumes na cômoda, os dois travesseiros, um só edredom. O barulho das duas portas do carro se fechando, as duas toalhas dependuradas, os desenhos dele na parede e os textos dela na gaveta. Desejava olhar seus olhos antes de dormir, sabendo que sentiam a mesma coisa. Se separar durante o dia sabendo que são um só mesmo distantes. Tudo que os juntava em plural. Deixar de ser dois, pra se tornar um, deixar de ser singular, pra se tornar plural.

Desejava tudo isso e só dizia num sorriso. Sorria com os olhos, com a boca, com os abraços, com os beijos, com o cheiro, com a saudade. Não mais eu, não mais você. Agora, nós.

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

 - Eu amo você.
Ela disse enquanto olhava seus próprios olhos no reflexo do espelho. Há pouco aprendera a conviver tão bem com o próprio eu, em seus defeitos e qualidades.
A maquiagem marcava seus olhos enquanto eles brilhavam ao contemplar a imagem de sua boca vermelha tão caprichadamente pintada. Por trás de todo o pó, os olhos eram um pouco fundos, marcados de alguém que chorara muito por amor. 
Mas dessa vez era diferente. Decidiu que investiria no único amor que só dependia dela pra dar frutos: O amor próprio. Afinal, quem não ama a si mesmo, não é capaz de amar outro alguém. E muito menos entender e aceitar os motivos pelos quais este outro alguém, devolve tamanho amor.